passaro

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sábado, 22 de março de 2014

Voando alto

O primeiro voo é para sempre.

No final da gestação do Ivo, li um trecho do livro da Laura Gutman "a maternidade e o encontro com a própria sombra" onde ela trazia a imagem do pai como um passarinho que protege o ninho, que se torna o guardião do mundo de fora para o mundo de dentro, que sai e retorna para o ninho trazendo alimento e trabalhando para suprir a necessidade da família.

Quem me conhece sabe como eu me identifico com os pássaros, tanto pela sua beleza quanto pelo seu mistério. Não só pelo fato deles voarem que isso por si só já é fascinante, mas também pelo olhar profundo deles, como se carregassem uma mensagem para te dizer e ao mesmo tempo tão distantes e secretos. São raros os momentos de conseguir olhar nos olhos de um pássaro por mais de alguns poucos segundos... muito menos alcançá-lo.

Quando meu filho nasceu, incorporei essa imagem e senti na pele o que significa guardar o ninho ou fazer as saídas necessárias para suprir a família. A mãe e o filho tem uma ligação muito animal entre eles, a demanda do filho é intensa e na maior parte das vezes se diz respeito à amamentação, principalmente quando se adota a livre demanda de alimentação - o que significa estar pronta para amamentar a cada chorinho de fome. Mas não é só isso, a mãe parece nascer com o filho uma capacidade inexplicável de cuidar. Não sei se é assim com todas as mães, mas em casa eu vi isso acontecer e posso dizer que é lindo e inspirador conhecer uma nova vida brotando na minha companheira. Já nos conhecemos tanto e agora estamos nos conhecendo ainda mais.

Já esse "cuidar" para mim, está nascendo. Não posso dizer que veio junto no parto. Nem que despertou... Está sendo processado, dia após dia, devagarinho... as vezes dolorido, as vezes mais simples. Talvez seja a gestação que o homem deve passar... Tenho ficado atento para ouvir o que amigos que se tornaram pai tiveram como experiência nesses primeiros dias de vida, mas só ouço coisas como "É incrível" ou "É lindo", "No começo é pesado mesmo mas depois passa", ""...e assim por diante.

Da noite para o dia tudo mudou. Minha vida está sendo totalmente recriada. Enquanto o mundo lá fora gira rápido, o mundo aqui dentro parou. Um amigo me disse que quando sai na rua tem a sensação de estar sob o efeito de drogas - e é isso mesmo. Meus horários estão baseados em intervalos de sono, banho, trocas de fralda, cuidados e carinhos. Meu bebê acabou de chegar no mundo de fora e também está passando por uma baita transformação. Cabe a mim responder ao chamado dele a qualquer hora do dia e da noite. Estar a serviço não é mais algo pontual ou uma escolha: É um compromisso. Não é sempre lindo, nem sempre gostoso, mas é uma linda oportunidade de amadurecer que muitas vezes me assusta.

Sair da zona de conforto nunca é fácil pra ninguém... tem pessoas que estão mais pré-dispostas do que outras. Para mim dói. Meu corpo está se reestruturando. As costas, o pescoço e o braço de segurar o bebê para ninar durante longos períodos. Ficar sem dormir até antes do nascimento do Ivo era algo inconcebível... e isso mexe com os nervos. Acordar de 1 em 1h para dar colo e cuidar é um exercício de amor.

Dizem que o corpo precisa de 60 dias para mudar um hábito. Estamos caminhando, cada dia é um dia. Com a ajuda da minha companheira, mãe do meu filho, vamos juntos. Lembrando um ao outro que temos asas e que nosso voo é para o alto.